
A Scenius é uma newsletter que decodifica as principais empresas e tendência do setor de tecnologia. Para receber nossos e-mails, basta clicar abaixo:
Oi pessoal! É com muita alegria que anuncio o lançamento da nova marca desta newsletter: Scenius*.
O termo foi cunhado pelo músico Brian Eno e combina "scene" (cena, como "a cena de arte moderna") com "genius" (gênio). A ideia central: genialidade não surge no isolamento de um único indivíduo. Ela nasce da inteligência coletiva de uma comunidade criativa. É o "gênio" que emerge quando pessoas talentosas interagem, colaboram e se inspiram.
Temos exemplos de Scenius espalhados pela história:
Artes: Movimento Impressionista, Bossa Nova;
Negócios: PayPal, Banco Garantia;
Ciências: Projeto Manhattan, Embrapa;
Scenius têm diferentes tamanhos e formatos. Meu objetivo é criar uma inteligência coletiva que ajude a decodificar as grandes empresas e tendências de tecnologia. Porque antes de investir e construir, é preciso entender.
E não tem forma melhor de começar essa nova etapa do que reportando meu período no principal Scenius da atualidade. Passei o mês de janeiro no Vale do Silício. Foram mais de 50 reuniões com empreendedores, investidores, professores e amigos.
Nós também temos uma versão em Áudio🎙️ AQUI
Segue a versão de um minuto:
A natureza da empresa de tecnologia mudou: inteligência é um produto com demanda infinita. Startups de IA crescem mais rápido, com menos pessoas e fazem com que o trabalho do investidor esteja mais difícil do que nunca.
Era dos Mega Fundos: poucas gestoras de Venture Capital concentraram o poder no Vale e com isso determinam cada vez mais o futuro da tecnologia.
Batalha Tecno-Econômica: a visão da China como um inimigo parece consolidada e vem abrindo novas verticais para investimentos, como defesa e manufatura.
Ambição sem Limites: um Vale que acredita que está perto de zerar o jogo do capitalismo. Ao mesmo tempo, não consegue traduzir o valor de centenas de unicórnios em empresas listadas.
As quatro lições
Tirei quatro grandes lições dessa viagem. Cada uma delas com ramificações:
A natureza da empresa de tecnologia mudou
Era dos Mega Fundos
Batalha Tecno-Econômica com a China
Ambição sem Limites
1) A natureza da empresa de tecnologia mudou
Durante os últimos 15 anos, codificamos o processo de construir empresas de tecnologia. O surgimento da Inteligência Artificial reescreveu essas regras. Pelos seguintes motivos:
1.1) Inteligência é um produto com demanda infinita
Quem não gostaria de ser mais inteligente? De conviver com pessoas mais inteligentes? De ter serviços e produtos mais inteligentes?
Ainda estamos no comecinho da adoção. Não entendemos como a IA se infiltrará em cada pedaço de todas as indústrias. Você pode investir em IA e perder dinheiro, escolher empresas em valuations irracionais (e tem muitas dessas por aí), que executam mal ou que carecem de barreiras de entrada. Mas o fenômeno por trás é real e descomunal.
1.2) Startups de IA crescem num ritmo sem precedentes
Existem startups de IA que faturaram US$10 milhões no primeiro ano e ultrapassaram US$100 milhões no segundo. É impossível não se perguntar: "Por que outras empresas não conseguem o mesmo?". Fora de IA, este tipo de crescimento não existe.
Diferente da Internet, que precisou que a infraestrutura de telecomunicações fosse construída para decolar, a IA conta com distribuição instantânea. Mais de 5 bilhões de pessoas têm acesso à rede e podem entrar num site como o do ChatGPT a qualquer momento.
O impacto: o referencial do que é possível muda e a barra fica mais alta.

Fonte: a16z
1.3) Estrutura de custos diferente e em evolução
Startups de IA de sucesso conseguem receita por funcionário 10x maior que as de outros setores. Precisam de menos gente. Mas alguns profissionais são insubstituíveis. Pesquisadores de IA de elite ganham centenas de milhões, mais que craques internacionais de futebol.
A fatia dominante das despesas está no gasto computacional, tanto para treinar quanto para rodar modelos. Qualquer DRE de uma startup de IA deixa claro: processamento está tomando o emprego das pessoas.
1.4) Pesquisa aplicada ao produto no mesmo dia
Novos papers são lançados todos os dias. O que era fronteira hoje pode estar ultrapassado amanhã. Isso obriga as empresas a operar de forma diferente, com ciclos curtos e orientados à ação.
Roadmaps de 12 meses não fazem mais sentido. Peter Fenton, sócio da Benchmark, afirmou que a Gestão de Produto tradicional não funciona em IA. Visitei uma empresa que coloca pesquisadores junto da equipe de atendimento ao consumidor para captar feedback e levar direto ao laboratório, ajustando o modelo na hora.
1.5) O trabalho do investidor nunca foi tão difícil
Crescimentos exponenciais são excitantes, mas trazem um desafio aos investidores: como julgar a qualidade e durabilidade dessas receitas? Como avaliar a capacidade técnica de um time na fronteira, quando a fronteira se move toda semana?
Certos investidores respondem com diligência contínua junto aos clientes das empresas nas quais pretendem investir. Um fundo me mostrou uma pesquisa com mais de 100 entrevistas, realizadas pelo próprio time, para ganhar conforto em pagar um valuation 2x maior que o de seis meses atrás.
David George, da a16z, resumiu assim:
IA está permitindo a criação de "Quebra-modelos": empresas que conseguem crescer mais rápido e por mais tempo do que qualquer pessoa poderia prever (como o iPhone). Esse tipo de empresa surge quando fundadores criam um produto inovador que expande o mercado para além de qualquer projeção e possuem um modelo de negócios que captura a riqueza desse crescimento.
1.6) O Fim do Começo
A narrativa costumeira diz que a disrupção vem para todos em algum momento. As empresas líderes de hoje não serão as de amanhã. Ford foi líder, depois GM, Toyota e agora a Tesla.
Mas, na história do capitalismo, nunca houve empresas tão fortes quanto as Big Tech atuais. À medida que tech se torna um setor mais intensivo em capital e dados, o direcionamento que recebo é que elas vão ficar ainda mais fortes.
Somado a isso, aprenderam a ser ótimas investidoras. A maior acionista da OpenAI é a Microsoft. Um dos maiores investidores da Anthropic é a Amazon.
Uma observação curiosa: os VCs adoram ignorar empresas como o Google, um dos maiores players de IA. Preferem falar da OpenAI e da Anthropic, mas não do Gemini. Clássico viés por conflito de agência. Afinal, eles "vendem" acesso a startups privadas. Google, qualquer um pode comprar na bolsa.
2) A Era dos Mega Fundos
Na bolha de 2021, era clichê criticar o SoftBank com seu Vision Fund de US$100 bilhões. Na verdade, o que era crítica carregava uma boa dose de inveja, em especial entre fundos de Venture Capital. Tanto é que nos anos seguintes, as principais gestoras continuaram a inflar o tamanho dos seus fundos e a concentrar mercado.
Duas dinâmicas correram em paralelo: enquanto o número de novos investidores saltou de 850 em 2010 para mais de 10.000 hoje, houve uma concentração brutal da indústria. Uma meia dúzia de gestoras concentra quase 30% dos ativos sob gestão. Essa tendência está acelerando. Em 2024, apenas 9 gestoras capturaram mais da metade de todo o capital levantado por fundos de VC nos EUA.
O caso mais emblemático é a a16z, que no final do ano passado captou US$15 bilhões em novos fundos, 18% de todo o dinheiro destinado a Venture Capital no país naquele ano.

Fonte: Pitchbook
2.1) Venture Capital ditando o Empreendedorismo
Uma das consequências dos Mega Fundos: o Venture Capital deixou de ser financiador e conselheiro da inovação para ditar regras e caminhos. Ouvi de vários empreendedores que eles tomam decisões de negócio pensando nos fundos de VC. Um deles disse: "Eu preciso construir uma IA Vertical X, pois assim consigo uma reunião com o sócio do fundo que cobre essa vertical. Se for uma aplicação de IA horizontal, não tem com quem falar."
O rabo abana o cachorro.
2.2) Investimento via Consenso
VC está se tornando cada vez mais um jogo de investir no consenso. Se você não consegue capturar a atenção de um dos Mega Fundos e mantê-lo engajado para financiar suas próximas rodadas, é difícil ter sucesso. Ouvi de um investidor:
"Edu, tem 30 rodadas de growth que importam e eu preciso investir no máximo possível delas. Eu sei quais são as empresas que quero investir. Passo o dia inteiro pesquisando-as, falando com clientes, fornecedores e etc. Sei que quando a rodada começar, preciso tomar uma decisão em poucos dias. Então tenho que estar preparado."
2.3) Impacto no Financiamento Global de Inovação
Se poucas firmas concentram os recursos de VC, e todas são americanas, o que acontece com os ecossistemas regionais? Um Family Office afirmou que hoje investe em fundos regionais apenas se eles fazem seed, pois os melhores empreendedores conseguem captar o Series A com um fundo do Vale.
A gravidade do capital puxa tudo para um ponto. E esse ponto fica na Sand Hill Road.
3) Batalha tecno-econômica com a China

Fiquei surpreso com a agressividade do posicionamento contra a China. Existe um entendimento difuso de que a superioridade econômica e tecnológica americana não está garantida. É preciso fazer de tudo para os Estados Unidos vencerem. E tudo para criar desvantagens para a China.
Isso alimenta a tese de "Dinamismo Americano", em que fundos advogam que para os EUA ficarem mais fortes, é preciso investir em setores que o Venture Capital historicamente evita. Manufatura, serviços e produtos para governo, aeroespacial, defesa, entre outros.
Soma-se que nos últimos 10 anos, duas empresas abriram o caminho para vender ao maior cliente do mundo: o Governo Americano. A Palantir em software e a SpaceX em hardware. Ambas foram pioneiras na visão de que em vez de licitar produtos ("Foguete com especificação XYZ"), era mais eficiente cotar o serviço ("levar X kg da Terra para a Estação Espacial Internacional").
A comparação com uma Guerra Fria é desconfortável. Diferente da tensão com a União Soviética, EUA e China têm economias entrelaçadas. Esses países precisam um do outro. Pode ser que isso mude em breve, mas hoje parece uma posição estabelecida.
Essa é mais uma de várias tendências que reforçaram minha conclusão: mais do que nunca, o Vale está centrado em si mesmo. Cenário oposto do que vimos em 2020-2021.
4) Ambição sem limites
Desde que voltei ao Brasil em 2021, fui ao Vale todos os anos. Coletar dados de forma consistente me permite identificar tendências. Se fosse resumir em uma frase: o Vale está mais ambicioso do que nunca.
Senti as pessoas mais ansiosas, como se "agora é a hora e amanhã talvez seja tarde demais."
Uma das razões: IA parece ser uma oportunidade maior que todas as outras. Como diria um amigo:
"IA é sobre aumentar a inteligência. Isso quer dizer que quem hoje está mais por dentro das ferramentas de fronteira, é mais capaz de fazer coisas do que eu, e seria ela também mais inteligente que eu?"
Esse aumento da ambição e ansiedade leva a comportamentos curiosos.
4.1) Bio-Hacking e Peptídeos
Já faz anos que o Vale tenta "hackear" seus corpos na busca por performance e retardar (ou reverter) o envelhecimento. A última novidade: peptídeos. São pequenas cadeias de aminoácidos, fragmentos de proteínas que funcionam como mensageiros biológicos. Enviam instruções específicas às células: liberar hormônios, acelerar recuperação, modular inflamação.
A promessa é precisão: em vez de intervenções sistêmicas, comandos quase cirúrgicos. Pense em chamadas de API no sistema operacional humano.
O lado menos glamouroso: muitos desses compostos não têm aprovação para uso de performance e vivem numa zona regulatória cinzenta. Na prática, formou-se um mercado paralelo onde "todo mundo conhece alguém" que vende. A última fronteira na corrida por vantagem competitiva.
4.2) Riqueza apenas no papel
Muita gente no Vale se considera rica, mas esse patrimônio vive em unicórnios que, se fossem listados, valeriam uma fração de suas últimas rodadas. O problema é sistêmico. Existem mais de US$13 trilhões em empresas de fundos de Venture Capital e Private Equity. US$3,7 trilhões só nos unicórnios.
E não há incentivo para corrigir essa distorção. Clientes de fundos de VC, gestores, empreendedores e funcionários preferem manter a ilusão. O problema aparece quando a realidade exige uma transação.
É por isso que admiro pessoas como o Pedro da Brex, que tomou a decisão de fazer uma venda, mesmo num valuation inferior a 50% da última rodada. Uma empresa pode ser bem-sucedida e ainda assim ter investidores que perderam dinheiro. Ponto relevante: anos antes da venda, ele já tinha reprecificado as opções de ações de seus funcionários, para que pudessem se beneficiar da transação.
E aí?
Se tivesse que condensar janeiro em uma imagem, seria a de um jovem chegando no que acredita ser o final de um videogame, na expectativa de zerar o jogo. Misto de ansiedade, ambição e excitação pelo que esta perto de chegar.
A melhor recomendação de como lidar com esse momento veio de Bret Taylor. Ele foi CTO da Meta, co-CEO da Salesforce, Chairman do Twitter, codou o Google Maps em um final de semana e atualmente é fundador e CEO da startup de IA Sierra e é o Chairman da OpenAI:
“Seja o que for que você acha que sabe, você precisa ter o máximo de flexibilidade mental e humildade agora em relação ao futuro, porque ele vai mudar em um ritmo cada vez mais acelerado. As pessoas dogmáticas, que afirmam com certeza que “esta ou aquela empresa sempre vai valer isso”, precisam prestar atenção ao que está acontecendo (agentes AI, e novos Labs e modelos). A situação é extremamente dinâmica, e você realmente precisa ser humilde diante do que está acontecendo — e atualizar seu modelo mental muito rapidamente à medida que as premissas mudam”.
Esse é o tipo de decodificação que a Scenius se propõe a fazer. Nos vemos na próxima semana.
Grande abraço,
Edu
